Rio de Janeiro, 9 de Setembro de 2010
Rio-Minas MTB Cup - 1ª Etapa - Maricá/RJ
Texto: Hudson Malta/Bikebros.com.br
Fotos: Hudson Malta/André Redlich
Fazenda Itaocaia - Maricá/RJ
25/04/2010
Já fizemos essa pergunta antes. O que você, querido piloto de MTB, define como “dificuldade técnica“? Neste domingo, 25/04, Maricá/RJ recebeu a 1ª etapa da Rio-Minas MTB Cup, na bicentenária Fazenda Itaocaia, encravada no sopé da Serra da Tiririca. Luís Cláudio “Dentinho”, que criou, junto ao seu irmão Henrique, o duro e técnico percurso da prova, é muito claro sobre o que pensa a respeito:
“Bikes de MTB evoluíram para 27 marchas, e estão caminhando para 30 marchas. Ainda temos suspensões, freios à disco e vários outros acessórios muito especializados. Tudo isso foi criado para suportar as piores condições do ciclismo off-road. Não faz sentido desperdiçar tudo isso em kilômetros e kilômetros de estradões de terra batida. ”
Com estas palavras, nosso amigo Dentinho justificou o técnico trajeto que criou para a prova, em uma clara ação de resgate aos princípios originais do MTB. E confirmou:
“Precisamos trazer de volta a essência do MTB, que está nos single-tracks e trechos técnicos de subida e descida. As constantes provas de Maratona em estradões de terra no RJ estão exigindo apenas força e resistência dos pilotos, acabando com a nossa competitividade nos outros eventos do país, que são muito mais técnicos. Isso também está provocando o surgimento de toda uma geração de ciclistas cuja maioria não sabe o que fazer em descidas, subidas ou single-tracks mais técnicos”.
Belas palavras que, cá pra nós, quase lhe custaram uma amigável “surrinha coletiva” de alguns dos seus queridos amigos bikers. Mas o fato é que as declarações do Dentinho andam junto com o traçado montado para a prova, que contou com 46km de pista cronometrada, além dos 16km (8 no início, 8 no final) de deslocamento controlado em trecho urbano. A Fecierj, organizadora da prova, teve que suar a camisa para desenvolver um trajeto que “driblasse” os estragos provocados pelas recentes chuvas que simplesmente destruíram as regiões de Niterói, Maricá e São Gonçalo.
Os estragos não ficaram apenas nas áreas urbanas, e também se refletiram nas trilhas, que estavam muito detonadas com voçorocas, areiões, pedras soltas, valas e lama para todo lado. Os pilotos tiveram que usar toda a técnica que tinham para transpor as dificuldades, que vieram acompanhadas de subidas e descidas monstruosas pelos já conhecidos arredores da Serra da Tiririca (Spar, Cassorotiba, Cachorro e Rampa de Parapente). Sem dúvidas, foi uma prova dura. Se considerarmos os “sinceros xingamentos” que ouvimos pelos atletas durante a prova, o Dentinho atingiu seu objetivo. Mas no final da festa, todos eram grandes amigos novamente, as dificuldades da prova foram rapidamente “esquecidas” e todos voltaram para casa com mais grandes histórias para contar!
A Fazenda Itaocaia
A prova foi sediada na bicentenária Fazenda Itaocaia, local que, em 1832, abrigou o ilustre inglês Charles Darwin em suas andanças pelo Rio de Janeiro. O pai da “Teoria da Evolução das Espécies" pernoitou na fazenda ao iniciar sua expedição à Macaé, partindo da cidade do Rio de Janeiro.
Ele estudou a fauna e flora da região que hoje é protegida pelo Parque Estadual da Serra da Tiririca. A fazenda ainda guarda vários tesouros históricos, e é um dos pontos pertencentes ao “Caminhos de Darwin”, um dos maiores roteiros turísticos do RJ. Além disso, é também o centro de treinamento da Equipe Amazonas de MTB. Seus galpões e casario de época abriram suas portas para abrigar, desta vez, pilotos de MTB do Rio e Minas Gerais para a primeira etapa da competição. A próxima etapa ocorrerá em novembro, em Juiz de Fora/MG.
A prova: Do inferno ao paraíso
A destruição causada pelas chuvas já dava o recado: as trilhas não teriam piedade de ninguém. E foi justamente o que aconteceu! O trajeto definitivo só foi decidido em cima da hora e tinha de tudo, desde solo compacto muito úmido até descidas super-técnicas cercadas de valas, passando por trechos de areião, “mares” de capim-navalha, lama e pedras soltas. E sempre acompanhados do item especial da casa: subidas duras que acabavam em descidas igualmente duras. Quem achava que a Região dos Lagos só serve para o surf terá que rever seus conceitos...
A dificuldade em encontrar um percurso que estivesse menos detonado pelas chuvas foi tanta que exigiu 4 alterações de rota nas semanas que antecederam o evento. No dia anterior à prova ainda havia indecisões sobre certos trechos perigosos, cujos cortes aumentaram o percurso para 46km. Na entrada da descida mais perigosa, destruída por barreiras, Cláudio “Dentinho” esperou pelos pilotos para exigir que descessem das suas bikes e completassem o trecho empurrando morro abaixo. Na chegada, muitos ciclistas reclamaram bastante das dificuldades, mas em pouco tempo as broncas davam lugar aos elogios à prova que, embora muito difícil, possuiu também uma grande beleza e alto astral.
Ausência de grandes nomes
Sendo uma prova que pretende integrar os pilotos do Rio e de Minas, esperávamos ver a presença de vários atletas do MTB mineiro, mas poucos apareceram. Mesmo assim, quem participou não facilitou para os cariocas, resultando em várias medalhas indo para Minas.
Entre os cariocas, a presença mais esperada era do campeão brasileiro de MTB XCM, o mendense Robson Ferreira (Amazonas / KHS / Eninco / Proshock / ASW), que não pode comparecer devido a problemas de saúde. Dessa forma, a vitória na Geral ficou com seu companheiro de equipe, Amarildo Ferreira, que completou a prova liderando de ponta-a-ponta, com o tempo de 2h11m42s. Na sua cola chegou Anderson “Póia” Tavares (campeão na “30-34 anos”), a 3m47s, e Christian Pereira (campeão na “Elite”), a 8m18s. Outra batalha aconteceu na “Sub-23”, onde o mineiro Felipe Marques mostrou a que veio, batendo Caio César da Silva por 2m55s.
Entre as meninas, Theresinha de Jesus apertou o passo e chegou na frente da sua eterna e querida “rival das pistas”, Mônica Bernardes. “Tetê”, como é carinhosamente conhecida pelos bikers, finalizou a prova em 3h33m12s. A Mônica ainda tentou acelerar para tirar a diferença nos últimos quilômetros, em estradão plano e seco, mas o passo forte da Tetê não facilitou. Mônica chegou ao final a apenas 3m18s da campeã. As duas traziam o semblante muito cansado, que traduzia o esforço exigido pelo percurso. Em terceiro chegou Carla Macedo, a 14m48s. Inicialmente, a expectativa era pela briga entre as meninas com Elis Regina e Alessandra Pires (atual campeã carioca de MTB XCO), que acabaram não competindo.
Ação social
Devido aos grandes estragos recentes, a organização da prova resolveu abrir espaço para o recolhimento de alimentos para doação às famílias atingidas pelos deslizamentos e enchentes. A região foi duramente atingida pelos temporais. Nas encostas das áreas urbanas, por onde se olha só se vê destruição. Os atletas atenderam ao chamado e levaram uma boa quantidade de alimentos que serão entregues pela Fecierj às autoridades competentes.
A 1ª etapa da Rio-Minas MTB Cup foi realizada pela FECIERJ – Federação de Ciclismo do Estado do Rio, com o apoio da Prefeitura de Maricá, Amazonas Bikes e Bikebros.com.br.
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